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A Língua, o mar


05.05.2026 |

Há idiomas que se erguem como pontes. O Português é mar: a travessia é incerta, o risco é constante, e toda tentativa de abarcá-lo naufraga.


Celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, neste 5 de maio, não é apenas reconhecer um patrimônio: é contemplar uma constelação plural, em que Europa, Américas, África e Ásia revelam um idioma talhado para comportar o excesso — de memória, de ambiguidade, de afeto.


O Português não apenas diz: insinua, contorna, demora-se onde poderia ser direto. A linguagem torna-se espaço de negociação entre o que se sente e o que se ousa dizer. Há sempre um desvio: o subjuntivo que se insinua, o infinitivo que já supõe o sujeito. E quando o tempo verbal suspende a certeza, dizemos “gostaria” quando de fato queremos, “talvez” quando sentimos, “quem sabe” quando esperamos.


Na Literatura, não por acaso, seus grandes momentos surgem quando essa tensão se expõe: a frase hesita, a palavra falha, o silêncio se impõe — falando mais, quando a linguagem parece recuar.


Em vez de idealizar a precisão e perseguir objetivos, o Português cultiva incompletudes e contorna o indizível, como a nau que navega em torno da Terra, enfrentando correntes contrárias, sondando profundidades imensuráveis, e seguindo — não para que se alcance um destino, mas para que continuemos a dizer aquilo que nunca se deixa dizer por completo.


Newton Nazareth é escritor, crítico literário, compositor, pianista, arquiteto e presidente da Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ.

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