A trajetória, a partir de um traço
Atualizado: 30 de set.
27.09.2026 - Observatório da Cena Aberta

Às vezes, a música é como um traço contínuo, capaz de ligar um instante à eternidade. Na trajetória de Dalmo Medeiros, porém, esse traço precisou vencer algumas resistências antes de encontrar seu caminho. Seu pai, Geraldo Medeiros dos Santos, músico e um dos fundadores da Orquestra Tabajara, conhecia de perto as incertezas da profissão artística e fazia o possível para que o filho mantivesse a Arte como um hobby, sem transformá-la em profissão. A mesma preocupação se estendia à família: sua mulher, Iracema Peixoto de Medeiros, cantora e irmã de Cauby Peixoto, também vivera o ambiente profissional da música, tendo atuado como backing vocal de Dorival Caymmi e Paulo Tapajós nos tempos da Rádio Nacional. Para Geraldo, portanto, a experiência familiar parecia ser justamente um motivo para manter os filhos longe das incertezas da carreira artística.
Mas a música tinha outros planos.
Foi ao ingressar no Coral da Universidade Gama Filho, conquistando uma bolsa acadêmica com desconto de 50%, que Dalmo começou a transformar aquela inclinação em trajetória. Vieram os espetáculos do Projeto Aquarius, iniciativa da Rede Globo de Televisão, e, em dezembro de 1975, cinco apresentações ao lado do compositor e multitecladista inglês Rick Wakeman, entre São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Em São Paulo e no Rio, o coral esteve ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira; em Porto Alegre, da OSPA. O programa reunia a versão completa do álbum Journey to the Centre of the Earth e peças avulsas de The Six Wives of Henry VIII, The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table e Lisztomania, trabalhos que Wakeman desenvolvia como solista e compositor de sucesso, depois de se revelar como integrante da banda de rock progressivo Yes.
Foi durante um dos ensaios que aconteceu o episódio que Dalmo jamais esqueceria. Sem falar inglês, aproximou-se do astro para pedir-lhe um autógrafo, na última página em branco de sua partitura de tenor. Wakeman desenhou sua própria silhueta em um único traço, começando pelo pescoço, percorrendo o perfil do rosto e descendo até a cintura, numa representação de seus longos cabelos, antes de assinar Rick Wakeman. O papel se perdeu, mas o desenho permaneceu na memória.
Aquele traço acabou se tornando uma imagem precisa da trajetória de Dalmo: uma linha que começou com uma bolsa de estudos, passou pelo Céu da Boca e chegou ao MPB4, atravessando grandes palcos, orquestras e diferentes momentos da música brasileira. O que seu pai tentara manter como atividade paralela transformou-se, pouco a pouco, em profissão.
E é justamente nesse ponto que o traço do passado reencontra o presente. Em 28 de outubro de 2026, Dalmo estará no palco do Teatro Riachuelo Rio, no projeto MPB4 Sinfônico, ao lado da Orquestra Petrobras Sinfônica, sob regência de Felipe Prazeres. O projeto nasceu de um concerto realizado em 2024 e deu origem ao álbum MPB4 Sinfônico, gravado com a própria orquestra na Fundição Progresso. No repertório, clássicos da música popular brasileira ganham novos arranjos sinfônicos, reunindo as quatro vozes do MPB4 — Aquiles Reis, Dalmo Medeiros, Miltinho e Paulo Malaguti Pauleira.
Há, assim, uma espécie de círculo que se fecha: aquele jovem tenor que, em 1975, participava de espetáculos em que a música de Rick Wakeman se encontrava com grandes orquestras sinfônicas é hoje integrante de um dos mais importantes grupos vocais brasileiros, levando sua própria música popular ao encontro de uma formação sinfônica. O traço que um dia foi desenhado por Wakeman numa partitura perdida reaparece, meio século depois, na própria trajetória de Dalmo.
A Música traçara seu caminho.

Dalmo Medeiros (Rio de Janeiro, 1951) é cantor, compositor, jornalista e instrumentista. Sobrinho do cantor Cauby Peixoto, iniciou sua trajetória musical nos anos 1970, integrando o grupo vocal Céu da Boca e participando de gravações de importantes nomes da música brasileira. Posteriormente, em Salvador, atuou como produtor de artistas ligados à Axé Music. Em 2004, passou a integrar o MPB4, assumindo a primeira voz. Como compositor, possui obras gravadas por diversos artistas e também se dedica à criação musical para o público infantil, sendo autor das músicas de A Turma do Seu Lobato e compositor exclusivo do projeto Zooparky. É autor do livro Estava Escrito nas Estrelas (Ed. In-Finita, 2023), título também de seu primeiro álbum autoral, lançado em 2025.
Newton Nazareth é compositor, escritor, músico, palestrante, arquiteto e cronista cultural. Preside a Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ.




Comentários