top of page
Buscar

Alvorada em Bangu

Atualizado: há 3 dias



Madrugada. Um homem desperta, solitário, para cumprir um antigo ritual.

Ele apronta-se, prepara o seu instrumento, respira fundo e, antes mesmo do primeiro trem deixar a estação, lança na madrugada o inconfundível som do trompete. O toque de alvorada não anuncia apenas a celebração: ele faz despertar a memória coletiva.


O documentário 32ª Festa de São Jorge do Àse Xwé Réwà S'ojú L'osún (Leandro Ribeiro/AxéNews, 2026) constrói mais do que um registro comemorativo. Ele produz um testemunho sensível sobre respeito cultural, diversidade religiosa e pertencimento coletivo. Ao acompanhar a trajetória do terreiro fundado por Doné Marlene de Oxum e conduzido hoje pela sua neta, Vodúngán Kelly de Oyá, a obra reafirma, através de depoimentos históricos, a preservação da resistência religiosa no tradicional bairro carioca de Bangu.

Emerge como protagonista deste cenário o mito de São Jorge — o cavaleiro ancestral que derrota o dragão. Esta trajetória atravessou séculos e geografias, da Capadócia à Inglaterra medieval, até alcançar o Brasil, onde adquire novas camadas simbólicas de devoção. Umbanda, Candomblé e Catolicismo elevaram o sincretismo religioso a uma legítima expressão de devoção popular, especialmente no Rio de Janeiro, com a instituição do feriado estadual em 23 de abril.


A diversidade ainda se faz ouvir na trilha sonora. Os pontos a capella evocam a oralidade ancestral. Os ogãs abrilhantam a louvação com sua presença. As gravações, produzidas com o rigor técnico do estúdio, deslocam o ouvinte para uma dimensão contemporânea e universal, como partícipe da mesma respiração coletiva.


Ao final do dia, o toque do trompete parece como que suspenso sobre Bangu — ecoando o simbolismo da memória espiritual e cultural do povo carioca.



Vodúngán Kelly de Oyá é dirigente do Àse Xwé Réwà S'ojú L'osún e da Confraria Oloyá's. Formada em Administração de Empresas e Psicopedagogia, atua como Diretora de Comunicação da Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ.


Observatório da Cena Aberta é assinado por Newton Nazareth — crítico cultural, escritor, palestrante, compositor, pianista, arquiteto e presidente da Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2026 por APALA - Todos os direitos reservados

bottom of page