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Alvorada em Bangu


16.05.2026 | Observatório da Cena Aberta


Madrugada em Bangu. Um homem desperta, solitário, para cumprir um antigo ritual: apronta-se, prepara o instrumento, respira fundo e lança na madrugada o som de seu trompete, antes mesmo do primeiro trem deixar a estação. O toque de alvorada não anuncia apenas a celebração — faz despertar a memória coletiva.


O documentário 32ª Festa de São Jorge do Àse Xwé Réwà S'ojú L'osún (Leandro Ribeiro/AxéNews, 2026) constrói mais do que um registro comemorativo: produz um testemunho sensível sobre respeito cultural, diversidade religiosa e pertencimento coletivo. Ao acompanhar a trajetória do terreiro fundado por Doné Marlene de Oxum e conduzido hoje pela sua neta, Vodúngán Kelly de Oyá, a obra reafirma através de depoimentos históricos a preservação da resistência religiosa no tradicional bairro carioca de Bangu.


Emerge como protagonista deste cenário o mito de São Jorge — o cavaleiro ancestral que derrota o dragão —, em uma trajetória que atravessou séculos e geografias, da Capadócia à Inglaterra medieval, até alcançar o Brasil — onde adquire novas camadas simbólicas de devoção. Umbanda, Candomblé e Catolicismo elevaram o sincretismo religioso à uma legítima expressão de devoção popular — especialmente no Rio de Janeiro, com a instituição do feriado estadual em 23 de abril.


A diversidade ainda se faz ouvir na trilha sonora. Os pontos a capella evocam a oralidade ancestral; os ogãs abrilhantam a louvação com sua presença; e as gravações produzidas com o rigor técnico do estúdio deslocam o ouvinte para uma dimensão contemporânea e universal, como partícipe da mesma respiração coletiva.


Ao final do dia, o toque do trompete parece como que suspenso sobre Bangu, ecoando como símbolo perene da memória espiritual e cultural do povo carioca.



Vodúngán Kelly de Oyá é dirigente do Àse Xwé Réwà S'ojú L'osún e da Confraria Oloyá's. Formada em Administração de Empresas e Psicopedagogia, atua como Diretora de Comunicação da Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ.


Observatório da Cena Aberta é assinado em www.apalarj.com por Newton Nazareth, crítico cultural, escritor, palestrante, compositor, pianista, arquiteto e presidente da Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ.

 
 
 

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