Datas Comemorativas no Brasil: Memória e conveniência
- Newton Martins Nazareth

- 23 de abr.
- 2 min de leitura

23.04.2026 |
A sequência de 21, 22 e 23 de abril — Tiradentes, Descobrimento do Brasil e São Jorge — revela como o país lida, de forma desigual, com suas datas simbólicas. Entre a construção heroica, o esvaziamento histórico e a força da tradição popular, percebe-se que o critério de permanência dessas datas raramente é apenas histórico: é político, cultural ou circunstancial.
Enquanto Tiradentes permanece como feriado nacional consolidado, apesar de celebrar um protagonista de um projeto separatista de âmbito regional, o Descobrimento do Brasil perdeu sua centralidade e transformou-se em problematização, sequer implicando paralisação das atividades. Já São Jorge, o mitológico cavaleiro capadócio guindado na Baixa Idade Média a padroeiro da Inglaterra, e fortemente assimilado pelo sincretismo religioso no Brasil, mantém vigor singular no imaginário popular, sobretudo no Rio de Janeiro, onde mobiliza, de forma espontânea, multidões, procissões, manifestações de fé e expressões culturais que atravessam diferentes camadas da sociedade, demandando a criação do feriado estadual.
O problema se agrava quando o calendário se expande por conveniência. O Brasil acumula feriados e pontos facultativos que interrompem a atividade produtiva — chegando ao ponto de eventos como o carnaval ou competições desportivas como a Copa do Mundo de Futebol motivarem paralisações oficiais. A necessidade de produzir, contudo, não desaparece: apenas se desloca, pois não é raro que se busque atividade paralela de trabalho nesses dias.
Em contraste, países como Estados Unidos da América e Inglaterra mantêm calendários estáveis e funcionais, preservando o significado das datas sem comprometer a continuidade econômica.
Cabe à Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ, como força cultural atuante, estimular o debate institucional da memória nacional com responsabilidade cívica e social.
Pois, como ensina o senso comum, “quem muito descansa, pouco alcança”.



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