Mais do mesmo
- Newton Martins Nazareth

- 3 de mai.
- 2 min de leitura

03.05.2026 | Crônicas de uma cidade
Como quem fosse convidado a habitar uma arquitetura a qual desaba no instante em que se ergue, seguimos celebrando espetáculos em que o som não encontra forma — e, sem forma, não se realiza como Arte.
A minha experiência pessoal funciona como oportuno contraponto: em 1977, a propaganda televisiva do Projeto Aquarius me conduziu ao show do Genesis, banda inglesa de rock progressivo marcada pela sofisticação dos arranjos, pelo uso inventivo do estéreo e por uma teatralidade que convertia show em experiência formativa — e que me seduziu a tal ponto que me tornei músico profissional.
Hoje, o show business converte artistas em ativos e shows em operações de escala milionária. Insiste-se em megaeventos instalados em espaços públicos incapazes de sustentar sequer o cotidiano de uma cidade — quanto mais a exigência técnica de uma experiência sonora plena. No Rio de Janeiro, a repetição desse modelo incompatível produz o já conhecido cenário de paralisação urbana, histeria de massa, drogas liberadas, violência extrema, caos humano. Ainda assim, o poder público mascara a sua responsabilidade, privilegiando a cobertura midiática pré-produzida de um êxito aparente e a ambígua transparência de uma contabilidade ilusória, lavando as mãos em nome da Cultura.
Música não pede multidões: pede forma, espaço, perenidade. Chega de erguer monumentos de arquitetura sonora frágil, destinados à ruína, condenados a desabar por excesso, quando se poderia construir — com rigor e medida — espaços saudáveis onde a escuta nos dignifique. Pois não se justifica o som sem que se faça o silêncio.
Crônicas de uma cidade é uma série escrita por Newton Nazareth — um artista carioca, crítico literário, escritor, palestrante, compositor, pianista, produtor cultural, arquiteto e presidente da Academia Pan-americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro - APALA RJ.



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